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Rimac Nevera: o hiperdesportivo elétrico de 412 km/h

Carro desportivo elétrico branco com detalhes azuis, modelo Nevera EV, em showroom moderno com janelas grandes.

Os números do Rimac Nevera não se intimidam quando são colocados ao lado dos melhores registos alcançados por mecânicas a gasolina com 12 cilindros, múltiplos turbocompressores, caixas sequenciais e quase 10 000 rpm.

Porsche, Ferrari, McLaren, Lamborghini… seja qual for a marca, todas acabam por ter de se curvar perante a tempestade Nevera.

A sua motorização assenta em quatro motores elétricos - um por roda. Em cada roda dianteira existem 220 kW (299 cv) e 280 Nm, enquanto cada roda traseira dispõe de 480 kW (653 cv) e 900 Nm.

A transmissão faz-se através de quatro caixas redutoras (todas de relação fixa), uma por motor, sendo que as duas traseiras estão instaladas no mesmo invólucro. Com um motor dedicado a cada roda, o Nevera vem, naturalmente, equipado com um sistema avançado de vetorização de binário (R AWTV2).

A energia é fornecida por uma grande bateria de 120 kWh (com química de lítio-manganésio-níquel), em formato de H, arrefecida a água e montada sob o piso. Ainda assim, a zona traseira é mais alta, tirando partido da ausência de bancos posteriores.

O Nevera beneficia de um centro de gravidade muito baixo e de uma repartição de massas quase equilibrada; em ambos os casos, o resultado é um comportamento mais estável e previsível. Já o sofisticado sistema de vetorização de binário consegue assumir as funções de controlo de tração e de estabilidade, com a vantagem de atuar de forma mais rápida e progressiva.

Números de cortar o fôlego

Menos de 2s dos 0 aos 100 km/h (oficialmente 1,97s!), 9,3s dos 0 aos 300 km/h e 412 km/h de velocidade máxima.

Se isto é difícil de transformar em sensação, então compare-se: o Bugatti Chiron, com motor de 16 cilindros, 8,0 l e quatro turbos, é quase meio segundo mais lento até aos 100 km/h, perde mais de quatro segundos até aos 300 km/h e só consegue superioridade no topo, com 420 km/h (limitados eletronicamente).

E até um monolugar de Fórmula 1 acabará por ficar para trás nos retrovisores do Rimac Nevera: 372 km/h de velocidade máxima (registados por Valteri Botas no GP do México de 2016) e 2,7-2,8s dos 0 aos 100 km/h.

Na construção recorre-se a fibra de carbono (a monocoque pesa apenas 200 kg), kevlar e metais leves, para maximizar leveza e rigidez - mas os 700 kg da bateria impediram que o conjunto baixasse dos 2150 kg.

Sobre este ponto, Mate Rimac é taxativo na sua leitura: “com uma rigidez torsional de 70 000 Nm/grau, o Nevera é o automóvel mais rígido alguma vez fabricado”. Na prática, é cerca de duas vezes mais rígido do que um Lamborghini Aventador, por exemplo, ou mesmo do que um… LMP1, tendo esta rigidez aumentado 34% face aos protótipos iniciais que deram origem ao Nevera.

A bateria de 120 kWh (responsável por 37% da rigidez do chassis) anuncia 550 km de autonomia e admite carregamento em cerca de uma hora num carregador de 150 kWh. E quando existirem carregadores de 500 kWh em número suficiente, será possível repor de 0 a 80% em apenas 19 minutos - algo que ainda demorará bons anos a tornar-se comum.

Impactante

Guiar o Nevera não é algo que se consiga com facilidade, mas a deslocação até à Croácia compensou. O encontro aconteceu numa pista de descolagem descontinuada do aeroporto de Zadar e, ao vê-lo pela primeira vez ao vivo, o estilo arrojado impõe-se muito mais do que em fotografia.

A silhueta de «linguado» elétrico deixa em sentido propostas com muitos argumentos, como o Porsche 918 Spyder ou o Ferrari La Ferrari. Esteticamente, há traços que lembram alguns McLaren e Ferrari (no capô e nas óticas dianteiras) e até o Corvette mais recente - sobretudo na traseira, possivelmente por influência do percurso de Adrian Mudri, o designer do Nevera, que trabalhou muitos anos na GM e foi também o autor do primeiro Rimac, o Concept One -; ainda assim, o conjunto é assumidamente original e com forte presença.

À frente da cava da roda traseira surge uma forma inspirada numa gravata, já que a gravata “tem sido símbolo de força e identidade da Croácia desde o Século XVII”, como explica Muti.

Tal como no Ford GT, as portas em tesoura abrem levando consigo parte do tejadilho, o que ajuda nas entradas e saídas do cockpit, que é estritamente de dois lugares.

Um momento solene

Depois de sentado ao volante e bem encaixado na bacquet em pele, com encosto de cabeça e cinto integrados, percebe-se de imediato a boa visibilidade frontal e a solução bem pensada de três ecrãs TFT de alta resolução.

Um fica dedicado à instrumentação, outro ao centro para o infoentretenimento e o terceiro em frente ao passageiro. Todos recorrem a programas e grafismos próprios, tal como todo o conceito e os componentes do tabliê, desenvolvidos na Croácia pela própria Rimac - com a exceção da unidade de climatização, comprada à Audi.

Grande parte das afinações é feita no ecrã central, mas mantêm-se alguns comandos físicos para não obrigar a procurar funções em menus e submenus, como se exige num carro desta natureza.

Se tiver tendência para desmaiar e pavor a montanhas-russas o melhor é nem entrar neste carro

Há sete modos de condução, selecionados por um comando rotativo no topo do painel: Conforto, Autonomia, Desporto, Pista, Derrapagem e mais dois configuráveis, além do Treinador do Condutor com Inteligência Artificial (IA).
Este último avalia carro e condutor em circuito e aponta formas de baixar o tempo por volta (zonas de travagem e aceleração, trajetórias, etc.), fornecendo telemetria em tempo real (transferível para computador ou telemóvel).

Para que isso seja possível contam os 12 sensores ultrassónicos, 13 câmaras, seis radares e o mais recente sistema operativo da reconhecida Nvidia, além das 77 ECU e dos milhões de linhas de código que o Nevera incorpora.

A mistura de pele, Alcantara, carbono e alumínio cria uma atmosfera «de corridas», totalmente coerente com o tipo de experiência ao volante do Rimac Nevera. Sem soar estranho, a “bagageira” do hiperdesportivo resume-se a uma espécie de porta-luvas com apenas 100 litros.

Míssil com rodas

Miroslav Zrncevic, responsável pelos pilotos de testes da Rimac, fala-me através da estreita janela do Nevera e relembra o procedimento: “basta selecionar Launch Start, pisar o travão, esmagar o pedal do acelerador e soltar o travão”.

Mesmo sem conseguir traduzir para palavras a sensação esmagadora criada por este míssil com rodas, é quase difícil manter a clareza dos sentidos - e até se chega a recear alguma lesão por excesso de aceleração e pela projeção do cérebro contra as paredes do crânio.

A pista de descolagem não permite atingir os 412 km/h, pelo que Zmcevic recomendou travagem forte aos 250 km/h, aproveitando a potência impressionante dos discos cerâmicos de 390 mm. Nesse momento, pelo canto do olho, espreito o ecrã à frente do passageiro e vejo que a energia recuperada na desaceleração brutal quase toca os 300 kW (o valor mais elevado em qualquer automóvel elétrico de produção).

Mais uma ou duas tentativas chegam para confirmar o que já desconfiava: se tiver tendência para desmaiar e pavor a montanhas-russas o melhor é nem entrar neste carro.

E aquilo que é prometido cumpre-se: o Rimac Nevera aceita longas escorregadelas controladas quando se escolhe o modo “Derrapagem”. Nesse programa, selecionado no comando em alumínio ao centro do painel, a quase totalidade do binário passa a privilegiar as rodas traseiras - que já recebem três vezes mais do que as dianteiras - e torna-se simples pôr o carro de lado, desde que exista critério no pé direito para gerir as transferências de massa agitadas por mais de 2300 Nm de binário.

E a prova dos nove…

Acelerar em linha reta de forma absurda é algo relativamente comum em elétricos, mas não faltam exemplos de modelos bem menos capazes quando chega a hora de se «portarem» em estradas públicas, cheias de curvas e contracurvas.

A direção é elétrica e by-wire, isto é, sem ligação mecânica: os movimentos dos braços do condutor são lidos por sensores e enviados eletronicamente para o mecanismo da direção.

Entre caras de espanto e polegares bem levantados - este automóvel já é assumido como motivo de orgulho nacional -, o Rimac Nevera demonstra que os 70 000 Nm/grau de rigidez torsional fazem diferença na integridade da carroçaria ao passar por ressaltos e sob fortes acelerações laterais; é praticamente impossível arrancar um gemido ao hiperdesportivo.

Ao mesmo tempo, o conforto consegue surpreender pela positiva quando esse é o modo escolhido. Apenas 10% das irregularidades (as de frequência mais elevada) são menos bem filtradas pela suspensão, sinal de que os amortecedores eletrónicos trabalham de forma competente - até porque, nos programas mais desportivos, o carro ganha a estabilidade de uma tábua.

Em sequências de curvas a ritmo elevado, percebe-se como a vetorização de binário contribui para que o carro pareça muito mais leve do que realmente é, enquanto o centro de gravidade baixo reforça a agilidade.

Consoante o modo selecionado, a grande asa traseira pode aumentar a inclinação para elevar a carga aerodinâmica e tornar a travagem mais eficaz. Existe também um servofreio hidráulico que distribui a força de travagem pelos discos, suavizando a passagem entre tipos de travagem, algo que o próprio engenheiro-chefe admite (e bem) ainda necessitar das últimas afinações nesta unidade de pré-produção.

O mesmo se aplica ao seletor da transmissão (rotativo, no tabliê, à esquerda do volante), que ainda reage de forma lenta, bem como a outros comandos; no entanto, no essencial, o Nevera está praticamente pronto para avançar para a linha de montagem.

150 unidades, dois milhões de euros cada

A produção em série do Nevera já arrancou em Zagreb, a um ritmo anual de 50 unidades, perfazendo um total de 150 unidades - todas assinadas pelo próprio Mate Rimac e comercializadas por dois milhões de euros cada.

O nome foi inspirado numa tempestade que se forma de forma súbita no Mediterrâneo e que pode varrer a costa croata com ventos acima de 250 km/h, acompanhados por trovões e relâmpagos. Tal como os que este novo hiperdesportivo fará “aparecer” quando começar a circular nas estradas, onde será vendido a multimilionários de gosto gourmet e carteiras à altura.

Para isso, estão a ser criadas 19 concessões em locais escolhidos a dedo, como Monte Carlo, Los Angeles ou Munique.

Percurso fulgurante

O Rimac Nevera espelha o percurso fulgurante de Mate Rimac, fundador da Rimac Automobili. Começou por somar prémios de inovação tecnológica e o seu primeiro projeto automóvel - um BMW Série 3 convertido a elétrico -, desenvolvido aos 19 anos, bateu vários recordes.

Em 2011, no Salão de Frankfurt, apresentaria o primeiro veículo construído de raiz, o Concept One, e não demorou até que os princípios tecnológicos chamassem a atenção de grandes construtores.

É o caso da Porsche e da Hyundai, que investiram na empresa e financiaram projetos posteriores - e, mais tarde, Aston Martin, SEAT, Renault, Pininfarina e Koenigsegg também se tornaram clientes da Rimac. Entre esses projetos está este Nevera, que vimos pela primeira vez como protótipo C-Two, no Salão de Genebra de 2018.

E agora, com o recente acordo de parceria com a Porsche para liderar a Bugatti - a empresa croata ficará com 55% das ações da Bugatti Rimac, pertencendo o restante capital à Porsche -, poucos duvidam de que o pequeno sonhador, hoje com 34 anos, já garantiu o seu espaço na galeria das lendas da história do automóvel.

Especificações técnicas

Rimac Nevera
Motor
Motores 4 (um por roda)
Potência Motores dianteiros: 220 kW (299 cv) cada; Motores traseiros: 480 kW (653 cv) cada; Potência máxima combinada: 1408 kW (1914 cv)
Binário Motores dianteiros: 280 Nm cada; Motores traseiros: 900 Nm cada; Binário máximo combinada: 2360 Nm
Transmissão
Tração Integral
Caixa de velocidades 4 Caixas redutoras de relação fixa (uma por motor)
Bateria
Tipo Iões de lítio (Lítio/Manganésio/Níquel)
Capacidade 120 kWh
Peso 700 kg
Carregamento
Potência máxima em DC 500 kW
Tempos de carregamento
0-80% 250 kW (DC) 30 minutos
0-80% 500 kW (DC) 19 minutos
Chassis
Suspensão FR: Independente Triângulos Sobrepostos; TR: Independente Triângulos Sobrepostos
Travões FR: Discos cerâmicos (390 mm); TR: Discos cerâmicos (390 mm)
Direção Assistência elétrica variável
Diâmetro de viragem N.D.
Dimensões e Capacidades
Comp. x Larg. x Alt. 4750 mm x 1986 mm x 1208 mm
Distância entre eixos 2745 mm
Capacidade da mala 100 litros
Pneus FR: 275/35 R20; TR: 315/35 R20
Peso 2150 kg
Prestações e consumos
Velocidade máxima 412 km/h
0-100 km/h 1,97s
0-300 km/h 9,3s
Consumo combinado N.D.
Autonomia 550 km

Nota: O preço anunciado é sem impostos.


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