Se avançar tal como foi anunciada, a Euro 7 - o regulamento que estabelece limites de emissões para os veículos - deverá encarecer de forma significativa os automóveis, contrariando a estimativa divulgada pela Comissão Europeia.
Essa é a principal conclusão de um estudo encomendado pela ACEA (Associação Europeia de Construtores Automóveis) à consultora Frontier Economics, que aponta para um aumento médio dos custos diretos muito superior ao previsto por Bruxelas: entre quatro e 10 vezes acima dos valores apresentados pela Comissão Europeia (CE).
Nas contas da CE, a Euro 7 traduzir-se-ia num acréscimo médio de custos diretos (equipamento, desenvolvimento e homologação) de apenas 184 euros por veículo nos ligeiros a gasolina, 446 euros nos ligeiros a gasóleo e 2765 euros nos veículos pesados.
O estudo, porém, estima aumentos bem mais elevados. Para os ligeiros a gasolina, o acréscimo médio calculado é de 1862 euros por veículo, isto é, 10 vezes mais do que a CE indicou.
Já nos ligeiros a gasóleo, o aumento médio chega a 2629 euros (seis vezes mais). Nos pesados, a subida estimada é de 11 707 euros por veículo, o que corresponde a quatro vezes o valor apontado pela CE.
Seja qual for a estimativa considerada, há um ponto praticamente seguro: a Euro 7 vai tornar os automóveis mais caros.
A ACEA sublinha, ainda assim, que o impacto final para o consumidor tenderá a ser superior ao apresentado no estudo, uma vez que os valores divulgados dizem respeito aos custos do lado dos construtores.
CE «esqueceu-se» de algumas contas
A diferença entre os números da CE e os resultados deste estudo é marcante e, segundo os autores, poderá explicar-se por omissões nos cálculos da Comissão.
De acordo com a análise, a CE parece ter centrado as suas contas sobretudo nos custos diretamente associados ao motor de combustão. No entanto, a Euro 7 vai além disso. Pela primeira vez na história das normas Euro, passam a existir limites para emissões de partículas provenientes de pneus e travões.
Trata-se de uma exigência que abrange todos os automóveis, sejam de combustão ou elétricos. Além disso, no caso dos elétricos, a Euro 7 pretende introduzir requisitos mais apertados relativos à durabilidade das baterias.
É expectável, por isso, que estas medidas também pressionem os custos dos veículos elétricos. O estudo aponta para um acréscimo de mais 178 euros por veículo ligeiro e 750 euros por veículo pesado.
Euro 7 vai tornar automóveis mais caros e mais gastadores
O relatório refere igualmente que, para lá dos custos diretos, existem custos indiretos ligados à Euro 7 que a CE não terá incluído nas suas estimativas.
Esses custos dizem respeito à utilização do veículo, em particular ao consumo de combustível. Numa estimativa de grandeza, o estudo antecipa um aumento médio de 3,5% no consumo por veículo.
Segundo a Frontier Economics, o acréscimo previsto no consumo resulta de exigências mais rigorosas da Euro 7 para cumprir limites de emissões em cenários de condução mais abrangentes.
Por exemplo, um automóvel emite muito mais quando arranca a frio, já que o catalisador precisa de tempo para atingir a temperatura ideal de funcionamento. Para acelerar esse aquecimento, é necessário gastar mais combustível.
Para além disso, a CE também não terá avaliado de que forma o aumento de custos associado à Euro 7 pode afetar a disponibilidade de automóveis mais acessíveis no mercado.
Como temos vindo a informar, vários construtores já abandonaram - ou estão a preparar a saída - do segmento dos citadinos. Agora, admite-se também a possibilidade de deixarem o segmento dos utilitários. O aumento esperado dos custos e a queda da rentabilidade são precisamente os motivos. Veja-se o caso do Ford Fiesta.
É possível que novos veículos elétricos venham a ocupar o espaço dos citadinos e utilitários, mas, por enquanto, os preços continuam muito acima do que uma fatia relevante do mercado consegue suportar.
Quando entra em vigor?
A Comissão Europeia indicou que a Euro 7 deverá entrar em vigor para veículos ligeiros em julho de 2025 e para veículos pesados em julho de 2027.
Este calendário tem sido contestado pela indústria, por ser considerado demasiado apertado, sobretudo porque, apesar de a Euro 7 já ter sido apresentada, ainda não foi aprovada.
Várias vozes do setor têm defendido o fim da norma ou, no mínimo, o adiamento da sua implementação. Mais recentemente, também alguns Estados-membros da União Europeia pediram o fim desta norma.
Fonte: ACEA, Frontier Economics
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