Há alguns meses, em Espanha, o Guilherme Costa já lhe tinha «sentido o pulso». Agora chegou a minha vez de conduzir, em estradas nacionais, o novíssimo Toyota Corolla Cross, um modelo que claramente fazia falta na oferta europeia da marca japonesa.
A razão é simples: a Toyota tinha um buraco no segmento C. O C-HR é mais compacto e aposta mais no impacto visual do que na vertente prática; já o RAV4, apesar de muito competente no lado utilitário, é também maior e mais caro.
Além disso, ao entrar neste território, a Toyota passa a jogar naquele que talvez seja o segmento mais relevante do momento - e um dos mais disputados. Basta pensar em propostas como o Peugeot 3008, o Nissan Qashqai ou o Volkswagen Tiguan, sem esquecer o recém-chegado Renault Austral.
Por isso, a missão não é fácil. A questão impõe-se: terá este Toyota Corolla Cross os argumentos necessários para se afirmar?
Imagem algo «cinzenta»
As comparações com os «irmãos» C-HR e RAV4 também fazem sentido no capítulo do estilo. O Corolla Cross não é tão dramático nem tão arrojado quanto eles - não é uma crítica, é um facto.
No desenho, aproxima-se mais do pragmatismo do RAV4 do que da linguagem mais irreverente do C-HR. Se o C-HR sempre se distinguiu por um visual marcante e diferente, o Corolla Cross escolhe um caminho mais «seguro», semelhante ao do seu «irmão» mais velho, embora com menos agressividade.
E é aqui que se percebe rapidamente que o Corolla Cross não faz «virar cabeças». Neste ponto, eu esperava uma aposta mais ousada por parte da Toyota e, consequentemente, uma estética mais alinhada com as criações mais recentes da marca.
Até porque, neste segmento, o design é muitas vezes um trunfo decisivo - e grande parte da concorrência joga forte nessa carta. Ainda assim, é possível que esta opção mais racional da Toyota acabe por resultar. E, como se verá mais à frente, não lhe faltam argumentos.
Interior: a tua «cara» não me é estranha
Ao entrar no habitáculo, a familiaridade é imediata: este SUV partilha o desenho (e os materiais) com os restantes Corolla. E isso não é, de todo, um ponto negativo. O interior está bem montado, transmite solidez e a selecção de materiais não desaponta. É um Toyota.
O painel de instrumentos digital de 12,3” - o mais recente da fabricante nipónica - merece destaque, tal como o ecrã multimédia central de 10,5”, compatível com Android Auto e Apple CarPlay.
Em comparação com os sistemas anteriores da Toyota, este revela-se mais ágil e com grafismos mais fáceis de ler. Nesse aspecto, este Corolla Cross é, sem dúvida, um avanço claro.
Espaço atrás e bagageira convencem?
Nos lugares traseiros, eu contava com uma diferença mais evidente face aos outros Corolla e, sobretudo, em relação ao C-HR.
No entanto, os dados são claros: no fim de contas, este Corolla Cross tem exactamente a mesma distância entre eixos do seu «irmão» mais «novo».
Mesmo assim, a área destinada aos passageiros atrás é suficiente e permite transportar dois adultos com conforto; e a carroçaria com linhas mais «quadradas» ajuda a garantir maior folga em altura.
Quanto à bagageira, o Corolla Cross oferece 428 l, um valor muito próximo dos 430 l reclamados pelo Renault Austral (E-Tech Full Hybrid) e um pouco abaixo dos 479 l indicados pelo Nissan Qashqai (e-POWER).
Somando a isso - e como seria expectável - fica também aqui acima do Toyota C-HR (377 l) e abaixo do RAV4 (580 l).
Sistema híbrido está ainda melhor
Em Portugal, o Corolla Cross é vendido apenas com uma motorização híbrida, que combina um motor a gasolina de quatro cilindros com 2,0 l (152 cv) com um motor eléctrico de 83 kW (113 cv), alimentado por uma bateria de iões de lítio (colocada sob o banco traseiro), para uma potência máxima combinada de 197 cv.
Este SUV foi o escolhido para estrear o sistema híbrido de quinta geração da Toyota, que representa uma melhoria real face ao que existia antes. Em potência pura, a subida não é propriamente expressiva, mas nota-se claramente a evolução na suavidade e na fluidez do conjunto.
O motor eléctrico está sempre presente, mas aqui, além da resposta pronta desde regimes baixos, o que mais se evidencia é a forma macia como tudo acontece. A entrega é natural e progressiva e, acima de tudo, mais silenciosa. Porque agora já não temos um motor de combustão a «gritar» quando aceleremos com mais decisão.
E, quando pedimos mais, a resposta mantém-se muito consistente: o Corolla Cross oferece um sprint dos 0 aos 100 km/h que demora 7,6s a cumprir. É um valor muito respeitável para um modelo deste tipo. É verdadeiramente rápido.
Ainda assim, o que mais me marcou foi a serenidade ao volante - volto a frisar, o sistema híbrido é muito progressivo e agradável - e também a boa postura do chassis em estrada, além do conforto, que já aqui elogiei, mesmo com esta unidade equipada com jantes de 18”.
Em curva, não é um carro para entusiasmar - também não é essa a intenção -, mas é competente e neutro nas reacções. Os movimentos da carroçaria parecem bem contidos (a suspensão independente às quatro rodas contribui) e a direcção mostra-se previsível, com um nível de assistência adequado.
Fora de estrada, quando decidimos «sujar» as rodas, a eficácia continua. Aqui, o sistema híbrido é mesmo uma vantagem: desde cedo é possível ter a tracção certa sem ser preciso carregar muito no acelerador.
O controlo de tracção cumpre bem, a suspensão lida de forma razoável com as irregularidades e o conjunto revela-se sempre sólido e firme.
Consumos baixos? Sim, muito
Que é competente, isso não está em causa, mas este Corolla Cross chega com um preço algo elevado - já lá vamos… Por isso, convém que a solução híbrida corresponda em consumos, para que seja, de facto, uma alternativa viável face a outras propostas.
Durante os dias em que fui o seu «dono», percorri 629 km e, no momento de o devolver, a média registada era de 6 l/100 km. É uma média global influenciada pelos muitos quilómetros feitos em autoestrada, precisamente o cenário em que, teoricamente, este sistema híbrido se sente menos confortável. Ainda assim, é um número muito bom para um modelo destas dimensões e potência.
Em cidade, onde naturalmente também acumulei bastantes quilómetros, o resultado melhora: aqui é possível circular abaixo dos 5 l/100 km, tirando maior partido da parte eléctrica.
E neste contexto urbano houve ainda um dado que me surpreendeu: os quilómetros livres de emissões que consegui fazer. Em alguns percursos, a percentagem de tempo em “modo eléctrico” andou perto dos 50%.
É o carro certo para si?
A mecânica híbrida é, simultaneamente, o grande ponto forte do Corolla Cross e o seu maior entrave, já que é precisamente o sistema híbrido - e a carga fiscal associada ao motor a gasolina de 2,0 l - que faz este SUV japonês encarecer no nosso mercado.
Em Portugal, o Corolla Cross começa nos 38 190 euros, mas na versão Luxury, a mais equipada da gama e a que testei, o valor sobe para os 43 490 euros, ao qual ainda é preciso somar os 800 euros da pintura opcional Branco Platina. Fica a faltar uma motorização mais acessível, como acontece no Corolla «carro».
Ainda assim, quem escolher este nível de equipamento não conseguirá adicionar praticamente mais nada além da cor, porque esta versão vem «recheada» com tudo o que a Toyota disponibiliza neste modelo. E isso ajuda a suavizar o impacto de um preço algo elevado. Olhem para a lista de série: tem quase tudo o que se pode querer.
Se a vossa utilização valoriza consumos contidos, precisam de um familiar e querem um SUV, este Corolla Cross pode, de facto, revelar-se muito poupado.
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