Ao entrarmos no centro de testes do Grupo Geely, estava prestes a arrancar uma apresentação em inglês… conduzida por um sueco. Pode parecer estranho, mas, apesar de a Suécia ficar a quase 10 mil quilómetros de distância por estrada, há muito que nunca pareceu tão próxima. E este contraste descreve bem aquilo que hoje se passa na indústria automóvel chinesa.
A China percebeu cedo que, para cumprir a ambição de ganhar relevância global no setor automóvel, o preço, por si só, não chegava. Nos últimos anos, investiu na compra de construtores, na aquisição de tecnologia e na contratação de alguns dos melhores talentos internacionais, para assegurar um lugar no topo - num debate onde, em grande medida, já dita o ritmo.
Ficou para trás a fase em que quase ninguém levava a sério os fabricantes chineses. Quem ainda pensa assim está, simplesmente, desatualizado. A prova é evidente: depois de compras como a da Volvo, o maior e mais avançado centro de testes de segurança automóvel do mundo é chinês - e está na China.
O novo berço da segurança automóvel?
O Geely Safety Centre situa-se em Ningbo e pertence ao Grupo Geely (detentor da Volvo, Polestar, Smart, Lynk & Co., Zeekr e Geely). A infraestrutura foi inaugurada recentemente, a 12 de dezembro de 2025, após um investimento inicial superior a dois mil milhões de yuan, o equivalente a cerca de 250 milhões de euros.
À primeira vista, pode soar paradoxal. Num momento em que a indústria fala cada vez mais de inteligência artificial, simulação e veículos definidos por software, um dos maiores grupos automóveis chineses decidiu aplicar centenas de milhões de euros numa instalação física de enormes dimensões: pistas de impacto, túneis climáticos, laboratórios, paredes de betão com um metro de espessura e manequins de testes de colisão de custo elevadíssimo.
A razão é simples: a digitalização não está a eliminar os ensaios reais - está a elevá-los. Há muito que um automóvel deixou de ser apenas uma estrutura com rodas; tornou-se um ecossistema denso de componentes e software, cada vez mais intricado e exigente de validar.
Os números de um colosso de segurança
Com 45 000 m², o Geely Safety Centre é apresentado como o maior e mais avançado centro de testes de segurança automóvel do mundo. Foi concebido para acelerar a inovação em tecnologias de segurança das várias marcas do Grupo Geely.
Neste complexo realizam-se testes de colisão a alta velocidade, proteção de peões, segurança ativa, ensaios a baterias, grupos propulsores de novas energias, sensores, controladores, atualizações remotas e cibersegurança. Também se verificam circuitos integrados, microprograma, transmissão de dados, encriptação, sistemas OTA (atualizações remotas) e vulnerabilidades de segurança ao nível do software.
Ao concentrar tantos recursos no mesmo local, o Grupo Geely consegue executar, numa única instalação, ensaios que muitas vezes dependeriam de múltiplas localizações, fornecedores ou laboratórios externos. Para um grupo com várias marcas, plataformas e mercados, isto traduz-se em maior domínio dos processos de validação e em ciclos de recolha de dados mais rápidos.
Cinco recordes Guinness no mesmo centro
O Geely Safety Centre somou cinco recordes Guinness. O primeiro é o de maior laboratório de segurança automóvel do mundo, com 81 930,745 m². O segundo distingue a pista interior de testes de colisão automóvel mais longa, com 293,39 metros.
O terceiro recorde refere-se à maior instalação de túnel de vento ajustável em altitude e clima para testes automóveis, com 28 536,224 m². O quarto reconhece a maior zona de colisão automóvel com ângulo variável entre 0 e 180º, com 12 709,293 m².
O quinto recorde prende-se com o maior número de testes disponíveis num laboratório de segurança de um construtor automóvel. No total, estão reunidos 27 tipos de ensaio num único espaço, cobrindo o veículo completo, componentes, sistemas eletrónicos, baterias e sistemas de segurança.
Uma pista interior de quase 300 metros
A pista interior de testes de colisão, com 293,39 m, permite executar ensaios até 120 km/h. Com esta capacidade, os testes deixam de ficar condicionados pelos impactos regulamentares mais comuns. Atualmente é essencial avaliar colisões frontais, impactos laterais, embates contra poste, impactos traseiros de alta velocidade, capotamentos, proteção da bateria e cenários com diferentes ângulos de impacto. E, neste caso, a Geely consegue fazê-lo com veículos ligeiros e com camiões - tudo em ambiente interior.
Na apresentação técnica em Ningbo, a Geely expôs ainda os seus critérios internos de validação para a plataforma SEA, enquadrando-os ao nível de referências como o Euro NCAP, C-NCAP, IIHS e NHTSA.
Túneis climáticos, altitude e baterias
O centro integra dois túneis climáticos preparados para reproduzir condições ambientais extremas, com uma amplitude térmica dos -40 ºC aos 60 ºC. Um dos túneis permite simular altitudes até 5200 m, com humidade entre 5% e 95% e ventos entre os 160 km/h e 200 km/h. O segundo túnel climático consegue gerar ventos até 250 km/h.
Existe ainda uma sala com paredes de um metro de espessura onde são feitos ensaios de radiação térmica, destinados a analisar o impacto da radiação proveniente do solo sobre baterias e componentes instalados na zona inferior do veículo.
O manequim mais avançado do mundo
Um manequim de testes convencional pode custar cerca de três milhões de yuan, aproximadamente 375 mil euros, mas o nível de ambição do centro nota-se também neste equipamento. É aqui que está um dos manequins mais avançados do mundo, equipado com 180 sensores e avaliado em 12 milhões de yuan, cerca de 1,5 milhões de euros.
Durante a visita, passámos pelos laboratórios onde estes ensaios são realizados, incluindo uma área dedicada exclusivamente aos manequins, com inúmeras unidades capazes de representar o corpo humano desde os 12 meses de idade, com diferentes estaturas, pesos e sexos.
Um milhão de quilómetros por dia em testes de ADAS
O laboratório de ADAS (sistemas avançados de assistência ao condutor) é uma das áreas mais determinantes do Geely Safety Centre, com capacidade para testar o equivalente a um milhão de quilómetros por dia em cenários de assistência à condução.
Este tipo de verificação ganha peso porque a segurança ativa depende de câmaras, radares, sensores, software e decisão em frações de segundo. A segurança automóvel já não começa no momento do impacto: começa antes, quando o veículo tem de detetar um peão, interpretar uma via, calcular a velocidade de outro automóvel ou antecipar uma situação de risco. Com a chegada de níveis de condução autónoma de nível 3 e nível 4, o centro passa a dispor também das condições necessárias para os testar.
Fora do laboratório, mas ainda em espaço interior, é igualmente possível criar fenómenos meteorológicos. Numa zona dedicada a testar sistemas de segurança ativa, acompanhámos a criação, à escala real, de cenários de visibilidade reduzida (chuva intensa, nevoeiro e queda de neve). O objetivo é colocar câmaras, sensores e radares no limite, num ambiente que simula uma estrada com vários tipos de sinalização.
Nesse dia, tivemos ainda oportunidade de assistir a um teste de colisão a 84 km/h: um embate de um veículo na traseira de um Zeekr 7X.
Num automóvel moderno, eletrificado e conectado, a segurança passou a incluir dimensões físicas, elétricas e também digitais. O próprio conceito de segurança automóvel mudou - e o epicentro da investigação e da inovação nesta área também parece ter mudado… para a China.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário