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Achado em Wijk bij Duurstede pode revelar navio medieval de Dorestad

Homem a trabalhar numa escavação arqueológica junto a um rio, com grupo de pessoas e máquinas ao fundo.

Debaixo de uma rua perfeitamente banal, entre escavadoras e vedações de obra, surge de repente nos Países Baixos uma peça de madeira de grandes dimensões. O que, à primeira vista, poderia passar por restos de madeira de construção antiga acaba por levantar outra hipótese: poderá ser parte de um navio medieval. Para os arqueólogos, o achado tem potencial para alterar de forma significativa a forma como se interpreta o comércio no início da Idade Média no noroeste da Europa.

Como uma obra de canalização se transformou numa sensação arqueológica

Tudo começa num cenário pouco convidativo: uma rua aberta e esventrada chamada “Promenade”, em Wijk bij Duurstede, perto de Utrecht. A autarquia está a substituir a rede de esgotos e a criar uma bacia de retenção de águas pluviais. As máquinas avançam, o calendário é apertado e, até aqui, nada foge à rotina.

A normalidade quebra-se quando, na parede da vala de obra, aparece uma peça de madeira trabalhada de forma invulgar. Não é um ramo, nem uma palete, mas sim uma viga maciça e curva. Danny van Basten, um arqueólogo amador que está a ajudar no local, percebe de imediato que aquilo não é um desperdício qualquer e dá o alerta. A câmara municipal chama especialistas do Museum Dorestad e de uma fundação dedicada ao estudo de embarcações históricas.

Quando a equipa consegue retirar a peça em segurança, a escala torna-se evidente: cerca de 3,20 metros de comprimento, aproximadamente 30 centímetros de espessura, com forma bem definida e entalhes executados com precisão. O construtor naval Kees Sterreburg identifica-a não como uma tábua comum, mas como uma caverna - uma das “costelas” que dão a um casco a sua forma característica.

"De um suposto bloco de madeira, passa-se de repente para um elemento central de uma construção naval medieval - com uma importância potencial à escala europeia."

A partir desse momento, e porque madeira antiga saturada de água é extremamente delicada, segue-se um protocolo rigoroso. A arqueóloga municipal Anne de Hoop coordena a remoção com cautela, a embalagem hermética, a armazenagem a baixa temperatura e uma limpeza feita por etapas. Se secar demasiado depressa, a viga pode fissurar em pouco tempo.

Dorestad - o eixo esquecido do início da Idade Média

O local do achado torna o caso ainda mais sensível. Wijk bij Duurstede situa-se precisamente onde, no início da Idade Média, existia a importante cidade comercial de Dorestad. Entre os séculos VII e IX, este foi um dos maiores entrepostos do norte da Europa, numa zona em que o Reno, o Mosa e as rotas para o Mar do Norte se cruzavam.

Na altura, pelo porto passavam cerâmicas, tecidos, metais e bens de luxo valiosos. Dorestad fazia a ponte entre o império dos Carolíngios - os Francos - e a Escandinávia, a Britânia e o interior ao longo dos grandes rios. Controlar estas vias navegáveis significava, em simultâneo, controlar impostos, portagens e esferas de influência política.

Dorestad está também ligada de forma estreita à história dos Viquingues. Fontes escritas referem ataques de guerreiros escandinavos à costa neerlandesa a partir de 810. Por volta de 834, Dorestad torna-se alvo, e mais tarde volta a surgir mencionada em episódios associados a pilhagens e lutas de poder.

Por isso, qualquer fragmento de embarcação encontrado aqui não é apenas um detalhe técnico. Pode indicar quem circulava nestes corredores fluviais, em que períodos o comércio prosperava e em que momentos a violência dominava o quotidiano.

É um navio viquingue - ou um outro navio de comércio?

A pergunta que se impõe é inevitável: será esta peça de um navio construído na tradição escandinava, talvez mesmo um navio viquingue? Para já, ninguém arrisca uma resposta definitiva. Os especialistas trabalham com mais do que um cenário.

Hipótese 1: Um navio do período carolíngio

Há indícios que apontam, em primeiro lugar, para uma datação na época carolíngia, aproximadamente entre 700 e 900 d.C. A profundidade a que a madeira estava, o contexto estratigráfico e fragmentos de cerâmica nas imediações sugerem essa cronologia. Seria exactamente o período em que Dorestad atinge o auge como centro comercial - e, ao mesmo tempo, se torna uma zona de contacto e de conflito com grupos escandinavos.

Se a viga for mesmo desse intervalo, poderá ter pertencido a um navio usado para transportar mercadorias entre territórios francos, a região do Reno e o Mar do Norte. Se a tripulação era franca, frísia ou escandinava, isso só poderá ser inferido de forma indirecta, a partir do tipo de construção e da origem da madeira.

Hipótese 2: Uma coga medieval do período da Liga Hanseática

Anne de Hoop pede prudência e coloca em cima da mesa uma segunda hipótese: a peça pode provir de uma coga, um navio mercante típico da Alta Idade Média. Estas embarcações dominaram o tráfego de bens nos séculos XIII e XIV no Mar do Norte e no Mar Báltico e são frequentemente associadas à Liga Hanseática.

Uma datação por volta de 1200 ou 1300 mudaria o enquadramento. Deixaria de estar em causa o universo dos primeiros contactos com grupos viquingues e passaria a tratar-se da fase posterior de expansão do comércio marítimo, com novas rotas, maior capacidade de carga e um contexto político diferente. Um vestígio interpretado como “Era Viquingue” passaria a ser um testemunho da fase alta da navegação mercante medieval.

O que a dendrocronologia deverá esclarecer

Para resolver estas dúvidas, a equipa recorre à dendrocronologia - a análise dos anéis de crescimento da madeira. Todos os anos, as árvores formam um novo anel cuja largura depende do clima e do local de crescimento. Ao comparar o padrão desses anéis com séries de referência bem datadas, é muitas vezes possível determinar o ano em que a árvore foi abatida.

  • Idade do navio: o ano de abate fornece um limite temporal para a construção da embarcação.
  • Origem da madeira: o padrão dos anéis pode indicar se a madeira veio da Escandinávia, de maciços montanhosos na Alemanha ou de florestas neerlandesas.
  • Técnica de construção: em conjunto com marcas de corte e com a forma da caverna, torna-se possível reconhecer tradições regionais de construção naval.

Desta forma, várias camadas passam a estar em foco: quando é que a árvore foi cortada? Onde cresceu? Que “escola” de artesãos poderá ter construído o navio? As respostas irão decidir se o achado se liga mais aos primeiros contactos viquingues ou ao período mais tardio da prosperidade hanseática.

O que uma única costela de navio revela sobre o comércio

Mesmo antes de existirem valores finais de laboratório, a descoberta já traz pistas relevantes. Restos de navios são raros nos Países Baixos. Muitos naufrágios ficam perto da costa ou estão em depósitos fluviais de acesso difícil. Para a área de Dorestad, até agora, havia poucos elementos materiais concretos de navios medievais.

A caverna permite avançar para questões muito práticas:

  • Qual é a robustez das tábuas e das cavernas?
  • Que curvatura tinha o casco - mais baixo, adequado a rios pouco profundos, ou mais fundo, pensado para maior carga e mar aberto?
  • Onde estão os entalhes e os encaixes, isto é, como eram ligadas as peças?
  • Que ferramentas foram usadas, visíveis nas marcas de corte?

A partir destes pormenores, pode estimar-se a capacidade de carga, a adequação a determinados cursos de água e até se a prioridade era a velocidade ou a carga máxima. Assim, não é só o navio que se torna mais nítido, mas também o quotidiano de quem o utilizava: mercadores, marinheiros e artesãos.

"Numa única costela de madeira cabe um capítulo inteiro da história da logística - da madeira usada à escolha das rotas, passando pelo número de barris a bordo."

Viquingues, comércio e o papel subestimado da cooperação

O achado em Wijk bij Duurstede também toca num cliché persistente: para muita gente, os Viquingues são sobretudo guerreiros saqueadores. Há anos que historiadores sublinham que estes grupos eram igualmente comerciantes, mercenários e intermediários entre regiões distintas.

Se a caverna se confirmar como do início da Idade Média e apresentar características de construção escandinava, isso não ilustraria apenas um ataque. O mais provável seria revelar contactos comerciais, rotas partilhadas e transferência de conhecimento na construção naval. Muitas vezes, as mesmas embarcações que participavam em incursões eram, noutros dias, simples cargueiros.

Um porto como Dorestad não era apenas um alvo de assaltos. Funcionava como ponto de circulação de técnicas, mercadorias e pessoas. Nesse sentido, uma única viga de um navio também representa:

  • importação de formas construtivas e saber náutico vindos do norte
  • exportação de bens de luxo e matérias-primas para regiões distantes
  • interligação de centros de poder ao longo dos grandes rios

Do estaleiro ao museu - porque é que achados assim atraem pessoas

O museu local já está a preparar planos para expor a caverna depois de concluídas as análises. Para o público, isso cria um acesso raro e tangível a uma época que muitas vezes é apresentada apenas através de mapas e crónicas áridas.

Perante uma peça real de um navio, vêem-se marcas de ferramentas, fissuras, alterações de cor e o modo como a madeira se encaixava noutros elementos. Tudo isto mostra que não se trata de mito, mas de ofício e de uma vida dura em rios e no mar. Em especial, crianças e jovens conseguem, através de um objecto destes, perceber melhor até que ponto as redes de comércio já eram extensas há mais de mil anos.

Ao mesmo tempo, o caso evidencia como os projectos modernos de infra-estruturas e a protecção do património estão hoje interligados. Qualquer grande obra pode tornar-se um problema arqueológico - ou um tesouro. Para as autarquias, isso pode significar custos adicionais e atrasos, mas o ganho de conhecimento dificilmente se mede em dinheiro.

O que significam termos como coga e dendrocronologia

Quem acompanha a discussão depara-se depressa com vocabulário técnico. Duas noções são especialmente úteis para interpretar o que está em causa:

Termo Explicação
Coga Tipo de navio muito comum no comércio do Mar do Norte e do Mar Báltico na Alta Idade Média, geralmente com casco alto e largo e um mastro, adequado a grandes cargas.
Dendrocronologia Método de datação que compara os anéis anuais de crescimento da madeira com curvas de referência, para determinar a idade e a origem do material.

Estes dois conceitos mostram como a arqueologia marítima trabalha na fronteira entre a ciência, a história da tecnologia e a investigação histórica clássica. Sem medições rigorosas, muitos achados ficariam no domínio da especulação. Sem contexto histórico, os anéis de crescimento não seriam mais do que sequências de números.

Seja qual for o resultado das análises em Wijk bij Duurstede - um navio mercante carolíngio, uma embarcação com influência escandinava ou os restos de uma coga mais tardia -, a descoberta fortuita sob uma rua discreta obriga os investigadores a reavaliar a imagem do comércio medieval. E lembra que, sob os nossos pés, pode haver muito mais passado do que o quotidiano deixa adivinhar.


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