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Potência máxima e fichas técnicas: quando os carros elétricos viram o mundo do avesso

Carro desportivo azul metálico estacionado em ambiente interno moderno com janelas grandes e outros carros ao fundo.

Cresci a devorar revistas de automóveis e a tratar fichas técnicas como se fossem cadernos de apontamentos - e, por isso, hoje tenho muitas vezes a sensação de que o mundo ficou de pernas para o ar.

Durante anos, (mesmo a sério) sabia de «cor e salteado» a potência, a velocidade máxima e a aceleração de praticamente tudo o que se vendia em Portugal. O exagero aqui é zero. O problema foi que esta memória “de elite” nunca quis colaborar com História, Geografia ou Estudo do Meio - para meu desespero e, já agora, para o dos meus pais.

E digo que o mundo está virado do avesso porquê? Porque a informação que consta das fichas técnicas dos carros atuais parece que não corresponde à realidade.

As fichas técnicas dos carros modernos já não nos orientam como antes

Quando olho para a folha de especificações de um modelo novo, há alturas em que fico a pensar se estou a ler bem. Um Smart Brabus #1 - que, sim, é um SUV utilitário! - aparece com tanta potência anunciada como um Mercedes-AMG A 45. E não é caso único: o Kia EV6 GT - um familiar 100% elétrico - surge como mais potente do que o Porsche 911 GT3 RS mais radical de sempre. Como é que isto se tornou normal?

A democratização da potência nos elétricos (e o fim do “uau” aos 200 cv)

A verdade é simples: não há engano nenhum. É mesmo o novo normal do universo automóvel. A forma como os motores elétricos entregam potência - e o custo por cavalo a que o fazem - deixa os motores térmicos sem grande hipótese de resposta. Potência tornou-se “barata”, acessível, quase banal. E, por isso, falar de 200 cv já não tem o efeito de antigamente.

Ainda sou do tempo em que o motor 1.9 TDI de 110 cv do Grupo Volkswagen era considerado um colosso de performance. Hoje dá vontade de rir, não é?

Se trouxermos esta comparação para os dias de hoje, até os desportivos pequenos e adorados dos anos 90 - como o Citroën Saxo Cup ou o Peugeot 106 Rallye - parecem contar uma anedota quando se olha apenas para a potência. Mas não é… aqueles modelos tinham graça. Alias, têm graça!

Peso e arquitetura: quando a potência (sozinha) não ganha

É precisamente por isso que, mais do que nunca, ler fichas técnicas exige contexto e alguma sensibilidade. Não chega fixarmo-nos no número da potência: é preciso considerar o peso, a arquitetura, e o conjunto como um todo. Querem um exemplo prático?

O Tesla Model S Plaid anuncia mais de 1000 cv de potência. Cumpriu o Nürburgring Nordschleife em 7min35s. O Alfa Romeo Giulia Quadrifoglio tem metade da potência e foi três segundos mais rápido (7min32s).

Dá que pensar, certo? Fica claro que a potência não é, nem nunca foi, a história inteira. Lembro-me, por exemplo, de ver o Chris Harris no Autódromo Internacional do Algarve a dar uma valente tareia ao BMW M3 ao volante do Renault Mégane R.S. Trophy-R da geração anterior. E isto com menos uns 200 cv do lado dele - tanto que até fui à procura do vídeo para confirmar.

O que continuo a querer em 2023: menos de 500 cv e mais surpresa nas curvas

É por estas e por outras que, em 2023, vou continuar a sonhar com carros que não passam dos 500 cv. E não vejo problema nenhum nisso. Na verdade, quero continuar a desfrutar do carácter de modelos bem menos potentes.

Vou manter a preferência por ser surpreendido onde realmente interessa: nas curvas daquela estrada especial. Toda a gente tem uma estrada especial.

Potência máxima é mesmo muito 2022. E vocês, estão em que ano?

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