Os maiores grupos mundiais de pneumáticos estão a enfrentar a fúria de associações de pescadores na Califórnia. O foco do conflito é uma substância sintética crucial para aumentar a durabilidade dos pneus, mas que se revela um veneno fulminante para os salmões do Pacífico.
A queixa em San Francisco contra 13 fabricantes de pneumáticos
Desde 26 de janeiro, o clima é tenso no tribunal federal de San Francisco. A ação, apresentada pela ONG Earthjustice, tem como alvo treze fabricantes do sector dos pneumáticos, incluindo os gigantes Bridgestone, Michelin e Pirelli. Em causa está o uso de um aditivo, o 6PPD (p-Fenilenodiamina), um antioxidante presente em praticamente todos os pneus do mundo. Embora impeça que a borracha do pneu estale e fenda ao contacto com o asfalto, o composto degrada-se quando exposto ao oxigénio e ao ozono (O3).
Como o 6PPD se transforma em 6PPD-quinona (6PPD-q)
À medida que um automóvel circula, os pneus libertam partículas microscópicas de borracha. À superfície dessas partículas, o 6PPD reage com o O3, originando um novo composto: a 6PPD-quinona (6PPD-q). Trata-se de uma substância extremamente tóxica para algumas espécies aquáticas, em especial peixes da família dos salmonídeos. De acordo com a Earthjustice, este derivado químico será responsável pelo declínio fulminante das populações de salmão coho (Oncorhynchus kisutch), uma espécie central para a economia e a cultura do Pacífico Norte. Já pressionado pelo aquecimento global, o 6PPD-q poderá ser o factor decisivo que empurra esta espécie para uma extinção definitiva.
Uma hecatombe: rios envenenados pela estrada
Em episódios de chuva intensa, o 6PPD-q é arrastado para linhas de água onde os salmões regressam para se reproduzirem. O depoimento do investigador Edward Kolodziej teve impacto no tribunal, presidido pelo juiz James Donato (conhecido por ter decidido o caso Epic Games vs. Apple). Segundo os seus cálculos, os quatro pneus de um único veículo contêm 6PPD suficiente para, após reação química, produzir uma quantidade de 6PPD-q capaz de “matar mais de 11 milhões de salmões”.
A Earthjustice acrescentou que este composto pode “matar os salmões coho em apenas algumas horas”. Em certas áreas críticas do Noroeste do Pacífico, as taxas de mortalidade atingem níveis recorde, chegando a “100% dos salmões que sobem os cursos de água doce” a morrerem antes sequer de conseguirem libertar os ovos. Para sustentar estas afirmações, os advogados da Earthjustice exibiram ao juiz Donato um vídeo que mostrava um salmão com sinais de asfixia, a debater-se numa água que, à primeira vista, parecia cristalina.
Um problema que pode chegar à Europa
Segundo a BFMTV, é muito provável que este envenenamento também diga respeito a ecossistemas em França, uma vez que moléculas de 6PPD e de 6PPD-q “também foram encontradas no lago de Annecy”.
O dilema industrial: segurança rodoviária ou sobrevivência animal?
Perante as acusações, os grandes fabricantes de pneus recorreram ao argumento mais previsível: a segurança rodoviária. Defendem que, por agora, o 6PPD não tem substituto e que, se fosse removido do processo de fabrico, a integridade dos pneus ficaria em causa. Isto porque é o 6PPD que ajuda o pneumático a manter a aderência ideal, ao evitar que a borracha endureça.
Por isso, não tencionam ceder e, nesta batalha, contam com o apoio de Tiffany Thomas, cientista da consultora Exponent - uma empresa conhecida por assessorar grandes grupos industriais em confrontos regulatórios. Na sua perspetiva, as provas apresentadas pela parte contrária carecem de realismo e não devem ser consideradas fiáveis.
Thomas rejeitou os estudos apresentados, classificando-os como “limitados e especulativos”, por se basearem em condições laboratoriais controladas que, segundo ela, não representam o comportamento real do 6PPD/6PPD-q nos ecossistemas em questão. Nas suas conclusões, as concentrações de 6PPD-q detetadas nos cursos de água ficam muito abaixo das doses letais.
Os industriais afirmam ainda que, neste momento, não existe qualquer alternativa viável ao 6PPD e que possíveis substitutos poderiam ter impactos ambientais “ainda piores”. É uma linha de defesa que se pode considerar “fácil”, porque não conseguem apresentar provas tangíveis que validem esse argumento. Ainda assim, é uma estratégia típica da retórica industrial - algo como um “princípio da precaução invertido”: enquanto o remédio não for perfeito, o veneno continua a ser tolerado.
Se o juiz Donato decidir a favor dos pescadores, os fabricantes poderão ser obrigados a retirar produtos do mercado ou a alterar urgentemente as cadeias de produção. A possível onda de choque já atravessou o Atlântico: a Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA) acompanha o caso de perto para avaliar eventuais restrições no continente europeu. Depois do Dieselgate e de, no ano passado, ter sido destacada a poluição associada às pastilhas de travão, será que estamos a assistir aos primeiros sinais de um “Tire Gate”?
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