A guerra no Irão, iniciada a 28 de fevereiro, está a mexer com muito mais do que o simples custo de abastecer. Se, ao início, se antecipava um conflito com quatro a cinco semanas, a realidade é que já se aproxima dos três meses - e continua sem qualquer previsão de término.
Bloqueio do Estreito de Ormuz e escalada do preço dos combustíveis
O momento mais delicado surgiu logo nos primeiros dias, quando Teerão anunciou o encerramento do Estreito de Ormuz e lançou ameaças diretas a qualquer navio que tentasse atravessar a zona. Desde então, a circulação marítima naquela que é a via mais importante do comércio energético mundial permanece interrompida.
As consequências refletiram-se quase de imediato nos preços. A 6 de março (sexta-feira), o gasóleo simples estava nos 1,635 €/l e a gasolina simples nos 1,704 €/l. Na segunda-feira seguinte - a primeira semana após o arranque do conflito - os valores subiram para 1,817 €/l no gasóleo simples e 1,776 €/l na gasolina simples.
Porque o Estreito de Ormuz é um ponto crítico para energia e indústria
O Estreito de Ormuz é o principal corredor por onde passa o petróleo proveniente do Golfo Pérsico - uma passagem por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial. Mas o seu peso vai bem além do crude: esta rota é também o principal canal de saída para Gás Natural Liquefeito (GNL), alumínio, matérias-primas destinadas às siderurgias e polímeros essenciais (como etileno, polietileno e polipropileno).
Impacto no mercado automóvel e a sua causa
Para lá do choque direto nas cadeias logísticas - uma vez que polímeros e outros materiais são determinantes no fabrico de componentes automóveis -, a guerra no Irão e a instabilidade que tem provocado, sobretudo através do preço dos combustíveis, está a contribuir para a descida das vendas de automóveis em diversos mercados.
China: queda das vendas e aumento da penetração de NEV
No maior mercado automóvel do planeta, o efeito é particularmente forte. Em abril, as vendas de automóveis na China recuaram 22%, com as entregas de ligeiros de passageiros a gasolina a descerem para 1,4 milhões de unidades. De acordo com a China Passenger Car Association, os veículos de combustão interna registaram uma quebra de 33%, enquanto os veículos de novas energias (NEV) caíram 6,8%. No acumulado do ano, o mercado já diminuiu 18,5%.
Durante muitos anos, a compra de automóveis representava entre 9,8% e 10,4% do consumo dos cidadãos chineses. Agora, essa fatia baixou para 7,8%. “Se este valor voltar a ficar acima de 9%, então a queda no primeiro trimestre é uma flutuação sazonal. Mas se permanecer abaixo de 8% durante o resto do ano, devemos ficar atentos à possibilidade do consumo de automóveis estar a entrar numa profunda recessão estrutural”, alertou Li Yanwei, consultor da China Automobile Dealers Association.
Ainda assim, há um indicador que vai contra a tendência e reforça a leitura de que o recuo dos modelos a combustão se explica mais pela volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis do que por uma quebra generalizada da procura: a taxa de penetração de veículos elétricos e híbridos plug-in ultrapassou os 60% das vendas de automóveis novos - o valor mensal mais elevado alguma vez registado na China continental. Mesmo com esse avanço, não foi possível travar a retração total do mercado.
E na Europa?
No Velho Continente, o quadro é menos negativo. Segundo a ACEA, até março o mercado europeu avançava 4,1% face ao mesmo período do ano anterior, suportado pelo crescimento dos elétricos (+26,2%), híbridos plug-in (+32,4%) e híbridos (+11,4%). Em sentido contrário, os carros a gasolina e a gasóleo caíram 17% e 16,4%, respetivamente.
Em abril, as vendas de elétricos aceleraram 37%, depois de em março já terem aumentado 43%. Em janeiro e fevereiro, a subida tinha sido mais contida: 15% e 19%, respetivamente, segundo a Jefferies.
A Jefferies justifica esta dinâmica com uma comparação direta: com os combustíveis aos níveis atuais, carregar um elétrico em casa passou a ser 53% mais barato do que encher o depósito de um carro a gasolina - cerca de 6,50 €/100 km contra 13,25 €/100 km.
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