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36.ª Convenção da ANECRA: “Setor Automóvel. Rumo a um Futuro Mais Inteligente” e “Após-venda - Os Desafios Imediatos da Atividade” em debate

Dois mecânicos com fato de trabalho analisam dados num tablet junto a um carro com capot aberto numa oficina moderna.

A 36.ª Convenção da ANECRA arrancou hoje, 28 de novembro, no Centro de Congressos de Lisboa, sob o mote “Setor Automóvel. Rumo a um Futuro Mais Inteligente”. Entre os temas em agenda esteve a sessão “Após-venda - Os Desafios Imediatos da Atividade”, onde foram levantadas várias questões consideradas determinantes para o setor.

No debate, sobressaíram três linhas de preocupação: a falta de profissionais qualificados, a integração da Inteligência Artificial (IA) nas oficinas e a crescente relevância das chamadas “peças verdes”.

A sessão incluiu uma intervenção de Raúl González Martin, fundador e CEO da Somos Movilidad, e foi moderada por Roberto Gaspar, secretário-geral da ANECRA. Participaram ainda Nuno Wheelhouse Reis (administrador da Redeinnov), Tiago Rocha (gerente da Rochauto), Tiago Firmino Ribeiro (diretor-geral da Solera Portugal), Pedro Sobral (diretor de Serviço e Operações da Ayvens), António Gonçalves Pereira (diretor de Rede da Euromaster) e Vítor Pereira (presidente da direção da ANCAV).

Escassez de mão de obra no setor automóvel

Um dos pontos mais enfatizados ao longo da sessão foi a dificuldade em assegurar mão de obra qualificada. Para Firmino Ribeiro, da Solera Portugal, trata-se de um constrangimento que não se limita ao contexto nacional, afetando toda a Europa.

A ausência de técnicos especializados, alertaram os intervenientes, tem consequências diretas: coloca em risco a produtividade e a rentabilidade das oficinas e limita a rapidez de resposta ao cliente. Tiago Rocha, da Rochauto, observou que “as oficinas têm medo de apostar nos jovens”, apesar de reconhecer que a entrada de novos profissionais é decisiva para a continuidade e modernização do negócio.

Nas gestoras de frota, o impacto tende a ser ainda mais visível, refletindo-se em tempos de imobilização mais longos, atrasos na reparação e subida dos custos operacionais.

A pressão agrava-se, também, porque o preço da mão de obra é entendido como aquém do exigido pelas necessidades atuais. De acordo com o Inquérito de Conjuntura da ANECRA, o valor médio praticado nas oficinas de marca é de 52€, enquanto nas independentes é de 32€.

Entre a falta de pessoal, os custos crescentes de recrutamento e retenção e a complexidade tecnológica cada vez maior dos veículos, tornou-se inevitável discutir a atualização destes preços.

“Quando a margem continua concentrada nas peças e não no serviço, o modelo torna-se frágil. É fundamental transformar a mão de obra qualificada num ativo real de valor e rentabilidade”.

Especialistas no debate do tema “Após-venda - Os Desafios Imediatos da Atividade”

A Inteligência Artificial como oportunidade

No enquadramento do tema, Roberto Gaspar afirmou que “O setor automóvel enfrenta hoje, de forma absolutamente transversal, o maior e mais rápido processo dos últimos séculos”, defendendo que a chegada da Inteligência Artificial (IA) foi inesperada e já está a influenciar decisões de compra.

“Nunca vi uma tecnologia que tenha entrado tão depressa na vida pessoal de uma pessoa, tantos receios e tantas expectativas”, acrescentou.

Durante a mesa redonda, foi debatido de que forma a digitalização e a IA podem funcionar como oportunidades estratégicas, nomeadamente ao simplificar a gestão de informação, apoiar o diagnóstico e tornar mais eficientes os processos internos. “A IA é a última fronteira”, disse Raúl González Martin, salientando o potencial de ganhos de eficiência e de desenvolvimento de novos serviços no pós-venda.

Firmino Ribeiro referiu que a Solera Portugal já está a trabalhar em diagnósticos automóveis suportados por fotografia, embora tenha deixado uma ressalva: “não acreditar em soluções motorizadas. É sempre o ser-humano que define no final se está certo ou errado”.

Da parte da Ayvens, Pedro Sobral sintetizou o ponto de situação: “A IA faz parte das nossas ambições, mas ainda não faz parte do dia-a-dia”.

A sustentabilidade

A sustentabilidade foi outro dos eixos centrais do debate, com destaque para o projeto Peça Verde, promovido pela Associação Nacional dos Centros de Abate de Veículos (ANCAV). A iniciativa centra-se na certificação de peças usadas, com o objetivo de assegurar qualidade, rastreabilidade e conformidade.

Vítor Pereira, presidente da direção da associação, reforçou que esta certificação procura aumentar a confiança do consumidor e incentivar práticas mais sustentáveis em toda a cadeia.

No entendimento dos especialistas, a transformação do pós-venda exige investimento em formação, digitalização, tecnologia e sustentabilidade. “Fará todo o sentido optar por peças verdes. Todos os automóveis hoje em dia são fabricados com um único propósito: redução de emissões”, concluiu Tiago Rocha.

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