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Comissão Europeia quer limitar ecrãs a 300 cm² nos carros: mais Nokia 3310, menos iPhone

Carro elétrico SUV azul com a porta dianteira aberta e interior branco exibido em exposição.

Há muito que um automóvel deixou de ser apenas volante, pedais e… bom senso. Em Bruxelas, a paciência com a complexidade crescente de utilizar um veículo - e com os ecrãs gigantes com que os condutores têm de lidar - parece ter chegado ao limite.

No dia 1 de abril, a Comissão Europeia apresentou uma proposta que, na prática, tenta puxar o habitáculo para trás no tempo, para uma era em que os comandos eram mais óbvios e, no dia a dia, resultavam melhor. A receita passa por reduzir a área útil de ecrã disponível no interior: mais Nokia 3310 e menos iPhone. “Os automóveis não podem ser smartphones com rodas”, disseram as fontes europeias contactadas pela Razão Automóvel.

A crítica é direta: “As interfaces atuais parecem desenhadas mais para impressionar do que para funcionar”, acrescentam as mesmas fontes. O problema, para a Comissão, é o que isto significa em segundos extra de atenção roubados à estrada. Nos corredores das instituições europeias, este fenómeno chegou mesmo a ser apelidado de “armas de distração maciça”.

Proposta da Comissão Europeia para reduzir a distração ao volante

A preocupação central é simples: quanto mais estímulos visuais e mais passos forem necessários para executar tarefas básicas, maior é a probabilidade de o condutor desviar o olhar e a atenção do que realmente importa.

A ideia de fundo, segundo Bruxelas, é devolver ao condutor um ambiente mais intuitivo, com menos dependência de menus e superfícies táteis durante a condução.

O meu é maior que o teu

O tamanho dos ecrãs surge como outro ponto sensível. De geração para geração, crescem - em dimensão, em quantidade e, segundo deputados envolvidos no processo (que pediram anonimato), também em “falta de noção”.

Já existem modelos em que a área digital ocupa o habitáculo de forma contínua, de uma extremidade à outra. Noutros, a tendência é espalhar ecrãs como “toppings numa pizza”, citando uma das pessoas envolvidas, colocando-os à frente do condutor, do passageiro e até dos ocupantes de trás… sem poupar sequer o retrovisor. O resultado, dizem, é um aumento da carga visual e da complexidade de interação, ao mesmo tempo que se reduz o foco na função principal do condutor: conduzir.

300 cm². Nem mais um pixel

É neste cenário que a Comissão Europeia avança com uma proposta que promete travar a escalada - e acrescentar mais uma dor de cabeça aos construtores: impor um limite à área de ecrãs utilizável durante a condução. O número definido é concreto: apenas 300 cm² por veículo.

Na prática, isto equivale a uma diagonal a rondar as 10 polegadas, dependendo do formato - há tabletes maiores. E o que chama mais a atenção não é só o tamanho permitido, mas a lógica por trás da medida.

A proposta não impede que sejam instalados ecrãs enormes, daqueles que atravessam o tabliê de uma ponta à outra. No entanto, com o carro em movimento, só poderão estar ativos 300 cm² da área total disponível. Se o painel for maior, parte terá de ficar “às escuras”. Uma espécie de “modo dieta digital” imposto por defeito.

A regra aplica-se igualmente ao número de ecrãs. Podem existir vários, desde que a soma das áreas ativas respeite o teto definido. Um painel de instrumentos digital, um ecrã central e até um extra para o passageiro continuam a caber no cenário - desde que alguém faça bem as contas. Literalmente.

E há um pormenor inesperado: o telemóvel também entra no cálculo. Entre colocar o telefone num suporte e usar o ecrã do infoentretenimento, a escolha poderá ter de ser feita ainda antes de arrancar.

Bruxelas acredita que esta é a forma de recuperar a atenção do condutor, entretanto perdida no meio de tantos pixéis.

Prazo de aplicação e adaptação da indústria

Ainda falta perceber como a medida vai sair do papel e chegar à realidade. A Comissão definiu um calendário apertado (para o padrão habitual): um ano exato para fechar detalhes, aprovar e publicar a proposta. A 1 de abril de 2027, esta regra passará a aplicar-se a todos os automóveis novos colocados à venda.

Até lá, o setor terá de se ajustar: reduzir dimensões, cortar alguns ecrãs ou, no limite, aprender a desligá-los. “Menos distração, mais condução”, terá sido assim que Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, resumiu a proposta.

Atualizado: Esta foi a nossa história para o Dia das Mentiras. Esperamos que tenha entretido.


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