Os valores de laboratório são uma coisa; a realidade dura de manter 112 km/h na auto-estrada é outra bem diferente. Uma análise alargada feita nos EUA mostra agora quais os elétricos que ultrapassam com folga o que os fabricantes prometem - e em que modelos a autonomia em viagens longas cai de forma perceptível.
Choque de autonomia ou surpresa positiva?
A organização Consumer Reports avaliou 27 automóveis elétricos com um método simples, mas implacável: velocidade constante de auto-estrada e condução até esgotar a bateria. O objetivo não era extrair a “autonomia de sonho”, mas sim reproduzir um cenário credível para grandes viagens de férias ou deslocações diárias com muita auto-estrada.
Como referência foi usado o valor EPA norte-americano, geralmente considerado mais exigente do que o procedimento WLTP comum na Europa. Ainda assim, surgiram diferenças por vezes muito grandes - tanto acima como abaixo.
"Alguns modelos foram claramente mais longe do que o prometido, outros perderam na auto-estrada até um quinto da sua autonomia homologada."
No essencial, o estudo procurou responder a três pontos:
- Que fabricantes divulgam autonomias mais conservadoras e realistas?
- Onde existem reservas positivas úteis para viagens longas?
- E que elétricos “desabam” mais a 112 km/h?
A BMW deixa a concorrência para trás
No topo do ranking aparece a BMW. Em média, a marca de Munique ficou cerca de 18% acima das indicações oficiais da EPA. Para quem conduz um elétrico, isto traduz-se em mais margem para planear rotas e em menos paragens de carregamento do que o esperado.
BMW i4 e i5 com um forte bónus de autonomia
O BMW i4 M50 acaba por ser o “astro discreto” do teste. Em vez dos 430 km anunciados oficialmente, a berlina desportiva percorreu 512 km no ensaio - um ganho de cerca de 82 km.
O BMW i5 M60, maior, melhora ainda mais: os 402 km de autonomia EPA transformaram-se em 475 km em condições reais. Ou seja, mais aproximadamente 73 km “a mais”.
Por trás destes números não está apenas uma bateria grande. A BMW parece ganhar sobretudo por eficiência: boa aerodinâmica, gestão térmica da bateria bem trabalhada e um acerto apurado entre motor, inversor e recuperação de energia.
"Quem conduz muitas vezes depressa beneficia em especial de veículos que geram pouco arrasto aerodinâmico a alta velocidade e mantêm a temperatura da bateria sob controlo rigoroso."
Marcas alemãs dominam o topo
Não é só a BMW: outras marcas alemãs também se destacam. A Mercedes e a Mini surgem logo a seguir, o que deixa o pódio firmemente “em mãos” alemãs.
Mercedes e Mini: quilómetros extra consistentes
Nos modelos Mercedes testados pela Consumer Reports, a distância percorrida foi, em média, cerca de 12% superior ao que o valor EPA fazia prever. No dia a dia, isto correspondeu a ganhos de autonomia na ordem dos 40 a 50 km.
A Mini - integrada no universo BMW - beneficiou de soluções técnicas semelhantes e chegou a aumentos comparáveis. Considerando o conjunto dos modelos, as marcas alemãs ficaram perto de +10% face às suas indicações oficiais.
A lógica é clara: os fabricantes premium têm investido fortemente, há anos, em eficiência, por exemplo através de:
- Carroçarias mais aerodinâmicas, com baixo coeficiente de resistência ao ar
- Sistemas complexos de recuperação de energia na travagem
- Circuitos de arrefecimento eficientes para bateria e grupo motopropulsor
- Pneus com resistência ao rolamento especialmente baixa
Coreanos apostam na honestidade em vez de números “de montra”
A Hyundai e a Kia seguem uma abordagem diferente. Nos seus elétricos, os valores EPA foram cumpridos quase ao milímetro. A diferença média foi de apenas -0,6% - na prática, dentro da variação normal.
Hyundai Ioniq 5N mostra que diversão e eficiência podem coexistir
Há um caso que se destaca pela positiva: o Hyundai Ioniq 5N. A versão mais desportiva do modelo atingiu 378 km no teste, apesar de oficialmente estarem indicados 354 km. Isto representa quase +7% e reforça a ideia de que até elétricos de alto desempenho podem ser eficientes.
No sentido oposto, o Kia Niro ficou um pouco aquém. No ensaio, faltaram cerca de 23 km para igualar o valor EPA, o que puxa ligeiramente para baixo a boa média de Hyundai e Kia.
"Compradoras e compradores que não gostam de surpresas deverão dar-se bem com modelos coreanos: a autonomia prometida corresponde muito de perto à realidade."
Elétricos dos EUA: entre o melhor e o pior
Entre os fabricantes americanos, o retrato é bem mais irregular. A Tesla fica acima com alguns modelos, mas abaixo com outros. E algumas pick-ups de grandes dimensões aparecem muito longe do topo.
Tesla: Cybertruck aceitável, Model S vacila
O Cybertruck e o Model Y Long Range apresentaram resultados razoáveis e ficaram ligeiramente acima dos respetivos valores EPA. Para quem faz longas distâncias, é pelo menos um pequeno “bónus”.
Já no Tesla Model S Long Range, a história muda. A EPA aponta 663 km, mas no teste de auto-estrada o carro ficou pelos 592 km. Isto equivale a menos cerca de 71 km, ou pouco mais de -10%.
Quem organiza paragens de carregamento com base em valores de catálogo tem de contar com desvios deste tipo - sobretudo com muita auto-estrada e ritmo elevado.
Pick-ups pesadas perdem muita autonomia em auto-estrada
Onde a penalização foi mais dura foi em alguns modelos grandes e pesados. O Chevrolet Silverado EV ficou aproximadamente 34 km abaixo da autonomia anunciada e o Ford F-150 Lightning perdeu cerca de 80 km.
A quebra foi ainda mais marcada no Rivian R1S e no Lucid Air Touring. Ambos perderam no ensaio cerca de 84 km face ao valor EPA. A explicação passa por carroçarias volumosas, área frontal desfavorável e pior aerodinâmica quando se mantém uma velocidade alta e constante.
Maiores vencedores e perdedores - resumo
| Modelo | Autonomia EPA | Autonomia real (112 km/h) | Desvio |
|---|---|---|---|
| BMW i4 M50 | 430 km | 512 km | +18 % |
| BMW i5 M60 | 402 km | 475 km | +19,1 % |
| Hyundai Ioniq 5N | 354 km | 378 km | +6,8 % |
| Tesla Model S Long Range | 663 km | 592 km | -10,7 % |
| Rivian R1S | 434 km | 350 km | -19,4 % |
Porque é que os valores de laboratório e a auto-estrada divergem tanto
Ciclos de homologação como o EPA ou o WLTP combinam percursos urbanos, estrada e auto-estrada. Além disso, em ambiente de teste usam-se velocidades limitadas e temperaturas controladas. Os sistemas de climatização e aquecimento muitas vezes não são usados ou funcionam em modos poupados.
Em auto-estrada, o cenário é outro: a resistência do ar cresce com o quadrado da velocidade. Se o ritmo aproximadamente duplica, a potência necessária aumenta de forma desproporcionada. Assim, a bateria tem de fornecer muito mais energia por quilómetro.
A somar a isto, contam também:
- Uso intenso de aquecimento ou ar condicionado
- Eventual caixa de tejadilho, suporte de bicicletas ou carga total
- Subidas ligeiras, vento contrário, piso molhado
- Diferenças de composto dos pneus e pressão
"Os modelos que superam os seus valores homologados em auto-estrada tendem a reunir uma combinação particularmente inteligente de aerodinâmica, gestão térmica e eficiência do conjunto motriz."
O que é que isto significa para compradores em Portugal e na Europa?
Quem circula frequentemente a 120 a 130 km/h na auto-estrada deve ler com cautela as promessas de autonomia. Os dados dos EUA não se transferem de forma direta para consumos europeus, mas deixam tendências muito claras.
Para quem faz muitos quilómetros, fazem sentido sobretudo marcas que demonstraram reservas no teste - em especial fabricantes premium alemães. Já as marcas coreanas destacam-se pela previsibilidade: para quem valoriza planeamento e consistência, Hyundai e Kia tendem a ser uma escolha segura.
SUV elétricos grandes e altos, bem como pick-ups, chegam naturalmente mais depressa aos limites em viagens longas. O aumento de consumo por aerodinâmica e peso manifesta-se precisamente onde muitos utilizadores exigem a autonomia máxima: em deslocações de férias ou em longas viagens de trabalho.
Como orientar melhor a escolha
A autonomia continua a ser um dos argumentos decisivos na compra de um elétrico. Alguns passos práticos ajudam a evitar frustrações:
- Privilegiar testes com condução em auto-estrada, e não apenas valores homologados.
- Considerar relatos de utilizadores em fóruns e comunidades.
- Dar preferência a modelos que, no mundo real, fiquem ligeiramente acima do valor de referência.
- Em caso de dúvida, escolher a versão com bateria superior se existirem viagens longas regulares.
- Avaliar a própria condução com honestidade: quem faz frequentemente 140 km/h ou mais verá o consumo subir de forma notória.
Este ponto também ganha interesse no mercado de usados. Modelos como o BMW i4 podem surgir em maior número como semi-novos à medida que chegam novas gerações. Para quem procura especificamente boa autonomia em auto-estrada, isso pode ser bastante apelativo.
No fim, o teste evidencia sobretudo uma coisa: nem todos os elétricos com grande autonomia homologada conseguem manter essa promessa a velocidades elevadas. Ainda assim, quem percebe os fatores técnicos e escolhe os modelos certos pode viajar em auto-estrada com tranquilidade e com poucas paragens para carregar.
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